Era uma velha, muito velha, já sem idade, que vivia mesmo à beira do início do deserto, sendo ela e o seu casebre azorragados muitas vezes pelas tempestades de areia e de vento.Beffana entretinha-se a fazer figurinhas de paus que lhe chegavam arrastados das planícies e não se dava com ninguém porque também nunca havia ninguém por aqueles lados.
Numa tarde de Dezembro, há mais de dois mil anos, sentiu bater à porta e julgou que fossem manigâncias do vento que já se sentia uivar.
Quando abriu apresentaram-se-lhe aos pés três Reis, (pelo fausto e pela riqueza só o poderiam ser!), que vinham montados em camelos.
- Que desejais? – perguntou com rudeza Beffana pois não estava habituada a falar a não ser com os seu bonecos de paus e trapos.
- Minha senhora, andamos atrás da Estrela que anuncia o nascimento do Rei, do Salvador, do Messias… mas pela manhã perdemo-la…- disse Melchior.
- Sabeis de quem se trata, certamente! O seu nascimento é esperado em todo o mundo – retorquiu Baltasar.
- Porque será um novo mundo que irá nascer! – exclamou Gaspar.
- Conheceis o caminho?
Beffana olhos os três Reis Magos com alguma displicência e pensou que Reis seriam aqueles se não sabiam por onde andavam. Os reis devem saber tudo, não é? Mas fungou, assoou-se ruidosamente, e olhou-os com os olhinhos pequenos desafiadores, dizendo segura:
- Sei sim. Sei onde vai nascer o Menino.
Os Reis Magos agradeceram muito e Beffana convidou-os a entrar para comerem uma sopa do seu grande caldeirão que estava sempre a ferver, enquanto explicava o caminho através do deserto que ela conhecia tão bem, como se traçasse um mapa, de tão claro que ficou o trilho para os reis.
Estes nem sabiam como agradecer e convidaram-na:
- Minha Senhora, não quereis vós vir conhecer o Salvador? Podeis deixar os afazeres para mais tarde…
Mas Beffana recusou. Não, não porque ela não gostava de sair de casa e tinha muito que fazer… os seus bonecos, mexer a sopa com a colher de pau, vedar as janelas das fustigadas do vento… não, Beffana não iria sair de casa para conhecer o Messias, esse Rei do novo mundo.
Agradecidos mas um pouco tristes os Reis Magos partiram, reconfortados de estômago e contentes porretomarem o caminho perdido da Estrela.
Mas não estava bem. Por que não iria ela conhecer o Rei dos Reis? O fogo podia apagá-lo e os bonecos não fugiriam dali…
Por que não tinha ido com os Reis Magos dar as boas-vindas ao Messias?
Nem pensou mais, atravancou a trouxa e pôs-se ao caminho.Mas o deserto prega muitas partidas e Beffana procurou, procurou, procurou mas nunca encontrava o Presépio onde o Menino já tinha nascido.
Beffana, ela que sabia ler as areias do deserto como as suas mãos... perdida naquela imensidão!
Desde aí, caminha pelo mundo, maltrapilha e com os seus bonecos num saco, entregando na noite de 6 Janeiro, prendinhas e doces a todos os meninos na esperança de que um deles seja o Messias ou que Ele a perdoe da arrogância.
- Truz, truz! São doces para Jesus! – diz ela a cada porta. Quando algum menino se porta muito, muito mal, ela deixa um pauzinho de carvão do fogo que ainda hoje alimenta o caldeirão.
Mas todos os meninos esperam que Beffana lhes deixe um doce ou um presente.
Nem mesmo no Natal a perfeição existe. E por esse mundo fora, Beffana continua à procura e a dar.
Esta história é a que se conta para os lados da Toscana nesta altura do natal. É a Beffana que os meninos esperam na noite de Reis, para entregar os presentes, enquanto noutros sítios são os próprios Reis que fazem as entregas.
Não se esqueçam de que a perfeição não existe, nem mesmo nesta altura, mas a solidariedade é muito importante e eu conto com ela.
Obrigada.
Obrigada.
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